sábado, 22 de novembro de 2008

DESPEDIDA

Ontem eu fui embora e apenas a luz do quarto deixei acessa.
Iluminando o que até ontem foi nosso quarto, nosso ninho.
Tirei minhas roupas da gaveta, meus sapatos do armário e tudo ficou na mais perfeita e aparente ordem, igual a gente nas convenções.
Saí sem deixar pistas, migalhas de rastro ou olhar pra trás.
Para não correr o risco de me arrepender.
Deixei o passado encima da mesa da cozinha junto com as chaves da porta, da garagem e do portão.
Quisera deixar as chaves da emoção junto.
Nosso retrato continua sobre a mesa de cabeceira.
Não serei eu quem vai guardá-lo numa gaveta qualquer na ânsia de livrar-se das lembranças de um passado recente e feliz.
Quando meus olhos ainda brilhavam de alegria por sua presença.
Não escrevi com batom vermelho “adeus” ou “até nunca mais” no espelho do banheiro.
Não protagonizarei cenas de cinema pastelão no final.
Nem de coadjuvante na despedida.
Não sei porque não foi preciso dizer nada, não sei porque não procurei ou fui procurada.
Já não tem mais importância tais atitudes. Muito menos palavras a serem ditas.
Nos perdemos no meio do caos da rotina, tropeçando em mágoas, dúvidas e muitos ressentimentos que nenhum de nós conseguiu explicar.
E foram horas intermináveis de palavras ditas e ouvidas. Conversas e brigas.
E nenhuma conclusão, deixando um gosto amargo de vazio, de lamentações contidas.
Hoje, não tenho idéia do que fazer. Minha bagagem se perdeu entre uma hospedagem e outra de tantas que foram tentando achar um porto.
Espero ao menos continuar de pé.
Pra seguir em frente e ver onde vai dar.
Meu futuro é uma grande incógnita, agora que tenho certeza que a seu lado não será.
Sinto medo de enfrentar a vida daqui pra frente já que ao cair da noite não vou mais me deitar e ser automaticamente abraçada por você em nossa cama.
Agora fria e distante.
E a noite será o momento mais difícil, justamente pelo botão automático de pequenos gestos cotidianos.
Um abraço, um beijo, ombros onde encostava minha cabeça e adormecia embalada nos movimentos da sua respiração.
Mas vou continuar!
Preciso saber onde vai dar essa sensação confusa de abandono e liberdade.
Se me sentirei solitária e amargurada ou livre e confiante.
Acho que já sequei todas as lágrimas. Já gritei todos os palavrões que conhecia, já esbravejei toda a raiva que me cegava os olhos, já bebi todo o bourbon que havia no bar.
Falta esgotar as aparências de mulher maravilha e inabalável que tudo resolve e tudo sabe.
Não sei pra onde meus pés me levarão, mas seja onde for o levarei comigo, se guardado com carinho ou tatuado a sangue frio no ventrículo da saudade não sei ainda.
Sei apenas que é num canto qualquer dentro da gente onde cedo ou tarde todos os grandes amores terminam.
Até se tornarem meras lembranças.
E as vezes nem isso.